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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Reflexão sobre a doação de órgãos e transplantes

O transplante de tecidos, órgãos e partes do corpo humano é um procedimento terapêutico destinado a pacientes em situação de risco. Não se desconhece, por isso, a importância da doação desses elementos vitais. Segundo pesquisas mais ou menos recentes, a maioria da população é favorável à doação de órgãos com tais propósitos,1 entretanto, muitos têm receio de doar por uma série de razões, dentre elas: em caso de doação de órgãos, após a morte, pode o Espírito doador sentir incômodo ou dor, no momento da retirada desses órgãos?

O Espírito recém-desencarnado pode se sentir lesado, se lhe retirarem, sem a sua anuência, os órgãos do corpo físico que habitou?

Não existe o risco de erro médico, que poderia determinar a remoção dos órgãos antes da morte física?

Ou mesmo a provocação da morte, com fins ilícitos?


De fato, doar órgãos é um gesto de amor e caridade no seu mais profundo sentido, desde que seja consciente, espontâneo. Ninguém deve sentir-se constrangido a doar seus órgãos, se a ideia não lhe agrada, se não está seguro de tal decisão. Por isso, foi oportuna a Lei n. 10.211, de 23/3/2001, que alterou dispositivos da Lei n. 9.434/97, a qual dispensava a autorização da família, nos casos de doador-cadáver, uma vez que se tornava “doador presumido” ou “compulsório” quem deixasse de registrar expressamente, nos documentos pessoais, a sua condição de não doador.

O Espiritismo, tendo anunciado a lei do progresso, obviamente é a favor de todo avanço, seja de que área for, pugnando, entretanto, pela observação da ética. Logo, jamais poderia ser contra a doação de órgãos: As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; unicamente destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus.2

Se não houver disposição de última vontade da pessoa viva, a esse respeito, tal direito transmite-se, automaticamente, aos parentes do desencarnado. Todavia, se a família desconhecer a vontade do extinto, torna-se muito mais difícil tomar uma decisão desse porte. Por tudo isso, é de suma importância que comuniquemos aos familiares, desde já, nosso desejo quanto ao destino a ser dado aos órgãos, para que não haja, no futuro, perplexidade nem dúvidas quanto à nossa real pretensão.

Há muito se estuda a questão ética sobre se a criatura humana é ou não proprietária de seu organismo. No sentido ético-religioso, o homem não é dono absoluto de seu corpo, mas usufrutuário dele, como o é de todos os bens materiais existentes, motivo pelo qual pode, de acordo com o seu livre-arbítrio e sua consciência, colocá-lo a serviço do próximo e da Medicina, se as condições o permitirem.

O corpo físico é o primeiro empréstimo que Deus concede ao Espírito para o seu aprimoramento moral e intelectual.Por que não permitir que esse bem precioso, que não mais será utilizado por alguém que acaba de desencarnar, favoreça, por meio da doação de seus órgãos, a prorrogação da vida orgânica de outro Espírito encarnado, para que esse possa, em permanecendo mais tempo na esfera terrestre, aproveitar as oportunidades de crescimento e de progresso, numa espécie de moratória espiritual?

A tecnologia dos transplantes vem aperfeiçoando cada vez mais esse processo terapêutico, vencendo o tradicional inimigo (a rejeição dos órgãos) e inclusive aprimorando o diagnóstico da morte física, sem prejuízo nenhum para o cosmo celular, para o perispírito ou para o Espírito desencarnante, que sempre recebe a proteção do Alto, por sua intenção benemérita.

Se houver algum erro médico, malversação ou má utilização dos órgãos doados, bem assim rebeldia do Espírito doador involuntário, tais acontecimentos estarão situados na órbita da lei de causa e efeito.

O diagnóstico da morte encefálica, que não se confunde com o estado comatoso,3 é o critério científico válido, atualmente, para detectar a cessação da vida que, inclusive, é reconhecido pela benfeitora Joanna de Ângelis.4

A morte é um processo complexo, lento e gradual. A vida não pode ser entendida pela simples presença de sinais vitais isolados em órgãos e tecidos, mas sim de elementos vitais estruturados que, em conjunto, formam a concepção da pessoa. Uma vez morto o encéfalo, não há qualquer possibilidade de reanimar o indivíduo; os demais órgãos, como pulmão e coração, continuam a funcionar por certo tempo, para logo mais, assim como todos os demais órgãos, interromper-se o seu funcionamento.

Por isso, é fundamental que os órgãos sejam aproveitados para doação antes que cessem os batimentos cardíacos e a respiração, que podem ser mantidos temporariamente por meios artificiais, logo após a morte encefálica, aumentando o fator tempo para a preservação das células dos órgãos a serem transplantados, o que também facilita a tomada de providências, inclusive médicas, jurídicas e logísticas indispensáveis aos preparativos e ao êxito da cirurgia de remoção e transplante.

A possibilidade de erro de diagnóstico é remota, pois, no caso dos transplantes, a legislação exige a realização de vários exames clínicos especializados e diversos complementares, e inclusive repetitivos, sendo possível até o acompanhamento do médico da família, para checar se estão sendo tomados os procedimentos corretos.

O estudo do perispírito facilita a compreensão do fenômeno morte, sob o ponto de vista espiritual e mesmo sob o ponto de vista biológico.

A desencarnação assemelha-se ao processo invertido da encarnação, em que as moléculas do perispírito vão se desprendendo uma a uma dos componentes celulares.

Portanto, a ligação do Espírito com a matéria pode persistir, ainda que não exista vitalidade. Entretanto, na ausência de vida orgânica, o Espírito perde o veículo de transmissão e recepção de sensações e percepções, que persistem apenas na forma de lembranças na memória. Após a morte,mormente nos seres humanos de evolução mediana, o Espírito não tem consciência de si mesmo imediatamente depois de deixar o corpo, uma vez que passa algum tempo em estado de torpor, de perturbação, que “nada tem de penosa para o homem de bem”, que se conserva calmo, semelhante em tudo a quem acompanha as fases de um tranquilo despertar.5 Os sofrimentos de que padecem os Espíritos, conforme eles mesmos revelam, são as angústias morais, que os “torturam mais dolorosamente do que os sofrimentos físicos”.6

Portanto, se alguém tiver que sofrer por algum motivo, após a morte física, quer haja cremação ou retirada de órgãos para transplante, a dor será moral e não física e acontecerá independentemente de ser ou não cremado, de ser ou não doador, visto que ninguém sofre desnecessariamente perante as leis divinas.7 Pelo contrário, a intenção caridosa do doador de órgãos atrairá a atenção dos Espíritos bondosos, que lhe darão ampla assistência, conforme atestam diversas mensagens recebidas do plano espiritual, 8 inclusive no caso de aproveitamento de órgãos de suicidas9 e em outros casos.10 É lícito concluir, portanto, que o desligamento dos aparelhos, após o transplante ou se este vier a ser frustrado por algum motivo excepcional, não implica a prática da eutanásia, uma vez que já havia ocorrido a morte encefálica independentemente do conceito espírita da desencarnação, cujo momento é diferenciado para cada Espírito, dependendo do estágio de evolução.

Não há nenhuma contradição dessa afirmativa com o ensino dos Espíritos superiores, pois eles mesmos esclareceram que a alma independe do corpo,11 tanto que esse pode subsistir, ainda que temporariamente, sem aquela. Entretanto, desde que cessa a vida do corpo, a alma o abandona, ou seja, “a vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica”,12 caso em que “a separação definitiva da alma e do corpo pode ocorrer antes da cessação completa da vida orgânica”.13

A vida é um dos bens mais preciosos que existem, mas todos, sem exceção, estamos fadados à morte física. Não há outro meio de aprender a conviver com ela, senão compreendendo a finalidade da própria vida e pautando o viver de acordo com as leis divinas.

No momento de uma decisão importante como essa, coloquemo-nos no lugar dos potenciais receptores de órgãos. Pensemos na mãe aflita que vê seu filho perecer por falta de doador compatível. Meditemos naqueles enfermos que, angustiados e sofridos, submetem-se, por exemplo, às máquinas de hemodiálise, à espera de um órgão.

Não nos esqueçamos de que o não doador, hoje, pode ser um receptor, amanhã.

*Por Christiano Torchi para a revista Reformador de Maio de 2013.

1FONTENELLE, André. Colaboração de Bianca Piragibe. Guia.Doação de órgãos: a vida de presente.Revista Veja, São Paulo, Editora Abril, ed. 1.924,p. 114 a 116, 28 set. 2005.
2KARDEC, Allan. A gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 52. ed. 5. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2012. cap. 1, it. 55.
3TORCHI, Christiano. Espiritismo passo a passo com Kardec. 3. ed. 2. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. it. 7.4.7. Doação de órgãos e transplantes, p. 439.
4FRANCO, Divaldo P. Dias gloriosos. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 4. ed. Salvador: Leal, 1999. p. 97 e 98.
5KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad.Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2011. q. 163, 165 e comentário de Allan Kardec à q. 165.
6Idem, ibidem. q. 253 e 255.
7SANTOS, José Roberto Pereira (então presidente da Associação Médico-Espírita do Espírito Santo). Chico e a doação de órgãos – Uma réplica. Folha Espírita, São Paulo, p. 4, fev. 1999.
8FRANCO, Divaldo P. Elucidações espíritas. Fernando Hungria (Org.). 2. ed. Niterói (RJ): Seja, 1993. p. 109 e 110.
9XAVIER, Francisco C. Amor e saudade. Diversos Espíritos.Rubens Sílvio Germinhasi (Org.). Apud SIMONETTI, Richard. Quem tem medo da morte? 7. ed. Bauru (SP): Gráfica São João, 1988. p. 122 e 123; LISSO, Wlademir. Doação de órgãos e transplantes. São Paulo: Feesp, 1998. p. 101.
10SIGNATES, Luiz.Doação de órgãos.Você já fez sua opção? Revista espírita Allan Kardec, Goiânia, Gráfica e Editora Espírita Paulo de Tarso, ano 10, n. 38, p. 5 a 11, fev. 1998

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